I Confissões
Eu me sentia sozinho, como se fosse o único ser a habitar o planeta. Estava apavorado, preso naquele quarto sombrio, eu via vultos, muitos vultos. Como se não fosse o bastante toda aquela tortura, meu falecido pai abre a porta e me surpreende com sua presença. Eu corri em sua direção gritando. – Pai! O que está acontecendo?
Um olhar hostil revelou um caráter que permanecia desconhecido por mim, até então. Lembro-me como se fosse hoje, um sorriso sádico se esboçou em sua face naquele momento de desespero. Ele me arremessou com toda sua força contra as estruturas sólidas da parede.
- Leonard, você decepcionou seu velho pai! Agora terei que lhe ensinar uma lição.
Eu estava confuso, meu próprio pai, agindo daquela maneira? Eu sempre o amei, não demonstrava, mas ele era meu pai e...
Ele estava se divertindo, dava para ver em seus olhos. O desgraçado continuava a me bater no ápice daquele sádico deleite. Meus gritos se confundiam e se misturavam àquelas gargalhadas, malditas gargalhadas! Nunca irei me esquecer. Parecia uma sinfonia bizarra onde os instrumentos da orquestra acompanhavam a harmonia do tilintar dos golpes violentos que ele me dava empunhando sua cinta. Eu apenas desejava que aquilo fosse um sonho, quer dizer, um pesadelo. E por sorte era, mas foi tão real que quando eu acordei...
Parece loucura, mas eu juro que tive a sensação de ter acordado com meus próprios gritos. De súbito, fui tomado pelo susto, meu coração pulsava desesperado, preso ao arcabouço ele suplicava para se libertar. Eu suava frio e meus olhos estavam tão arregalados quanto os de uma coruja no auge de sua carreira. Nunca em toda minha vida eu havia passado por uma experiência tão absurda como essa, nem com todas as drogas que já experimentei de uma só vez, Parecia que eu tinha acabado de sair das gravações do filme A Paixão de Cristo e bem na maldita cena das chibatadas em praça pública doutor. Meu corpo ficou marcado com hematomas e cicatrizes, como estas!
- Sua história é impressionante senhor Grant. Mas presumo que eu possa lhe explicar a fonte destes pequenos ferimentos e...
- Como é que é? Pequenos ferimentos? Acho que não estamos nos entendendo doutor, olha só o tamanho dessa cicatriz, é enorme!
- Leonard meu filho, eu não acho que seja um motivo tão grande para se abalar, eu já lhe explico o que pode ter ocasionado estes seus “grandes ferimentos”.
Doutor Carter, um psicólogo inglês de renome que possui grande ”status” entre seus colegas da alta classe. Um charlatão, um velho excêntrico que tem como passatempo favorito alienar as pessoas para arrancar até o ultimo tostão de seus bolsos com suas teorias Fraudulentas ou Freudianas, como queira chamar, sobre os mistérios que habitam os sonhos.
- Está bem doutor, então comece a falar.
- É simples, a minha teoria consiste na hipótese de que você foi agredido enquanto dormia e seu sono, muito pesado por sinal, encontrava-se num estagio tão avançado que o senhor próprio não poderia de modo algum, acordar. Paulatinamente seu cérebro foi criando uma situação correspondente à dor física sofrida supostamente no período em que você estava sendo agredido e que talvez, chamemos aqui de assalto noturno, sim um ”assalto noturno”, muito comum em subúrbios e tudo isso evidentemente explica que a surra real que você levou o fez pensar que estava apanhando no sonho meu rapaz. “Surra real”, “surreal”! Hahaha! Viu até combina, entendeu o trocadilho rapaz?
- Entendi sim doutor, mas você ainda acha que eu vou acreditar que um maluco invadiu meu ap., me bateu do nada e ainda por cima nem fez questão de me roubar?
- Escute aqui meu jovem, sou um profissional, não estou aqui para brincar e exijo respeito. Sem mencionar que todas as minhas teorias são embasadas na simples coerência real dos fatos, eu me dediquei durante toda minha carreira a desmistificar falsos tabus criados pelas franquezas da consciência humana para fazer com que os indivíduos desta sociedade tão conturbada voltem a ser pessoas felizes e normais. Ou você acha que essas marcas foram conseqüências da surra que seu pai lhe deu no sonho? Hein rapaz?
- Talvez seja. Quem garante?
- Meu jovem preste bem atenção no que vou lhe dizer. – O velho se curva na poltrona diante a mim, ele aproxima sua cara enrugada e exala um hálito fétido de múmia em estado de putrefação ao continuar seu monótono discurso. – Se você juntar todas as faculdades que um homem pode fazer no decorrer de sua vida e todos os livros que você possa imaginar que ele supostamente tenha lido em uma só encarnação ele jamais conseguira embasar argumentos que deturpem a coerência de minhas análises.
- Foda-se!
- Retire-se daqui imediatamente! Moleque insolente.
- Até mais doutor, te vejo no inferno! Passar bem.
- Talvez no encontremos lá mais cedo do que imagina...
Thiago Dionisio